Asas da Vizinhança


Asas da Vizinhança é um jogo sobre dramas humanos, e de como eles podem se tornar migalhas por meio de bicos, penas e poesia. Um dos jogadores será o narrador da história. Ele jogará com o Bairro e apresentará os problemas mundanos de seus moradores. Os demais jogarão com as aves do bairro e participarão das histórias, interferindo na realidade de forma direta ou por meio recursos líricos.

Há vários procedimentos para o desenvolvimento de um jogo. E da ideia até o primeiro teste o caminho é um tanto longo. Por vezes você deseja criar um jogo de forma bem diferente da que apresento aqui. Você pode querer desenvolver uma mecânica, um procedimento que te desafia. E, antes mesmo de definir o tema e o tom do jogo, já pensa em fazer algo que se encaixe nesse ponto. E não há uma fórmula pronta ou um “jeito certo” para você obter êxito em seu processo de desenvolvimento. Há algumas técnicas que são debatidas para organizar a produção, mas não vamos discutir isso em detalhes por aqui. Como disse, divido o caminho que percorri para criar o Asas da Vizinhança.

Tema, tom e estilo são palavras acima podem dizer várias coisas, mas quando você pensa em um jogo, deve pensar em um forma de amarrar todas de uma forma coesa. Claro que é possível, em seu processo, criar ruídos propositais entre tema e tom. Por exemplo, você pode pensar em um jogo com uma temática heroica, mas com um tom soturno. Veja, isso não é o mais comum, mas só em observar essa pequena nuance, você já consegue pegar bem qual é a proposta do jogo. Então, conseguir posicionar minimamente o seu jogo de acordo com estes elementos ajuda muito a pensar nas soluções durante seu desenvolvimento.

Asas da Vizinhança é um jogo sobre dramas que, de alguma forma, flerta com o gênero fantasia urbana, mas em outra escala, e com um quê de crônica e poesia. Temos uma realidade urbana, afinal o jogo se passa em uma cidade contemporânea. Mas a cidade é muito grande para as singelezas, para os detalhes. É preciso ampliar, chegar mais perto. Então, no lugar da ideia tradicional de termos uma Cidade enquanto personagem, aqui as coisas giram entorno de um Bairro. É interessante porque talvez em uma cidade interiorana e bucólica, isso poderia funcionar em uma cidade, uma vez que o nível de aproximação espacial (e pessoal) são maiores. Mas o foco em um Bairro numa cidade dos dias de hoje atende bem à minha proposta. Assim, a redução do espaço ficcional atende à experiência que penso para o jogo. No Bairro, há um ou dois hospitais, no máximo. Há um corpo de bombeiros,  uma grande farmácia, um clube, algumas escolas, as ruas mais violentas, a praça principal. Singularizar os espaços e dar nome às coisas é algo importante para o estilo de histórias que se pretende contar. Então, no lugar de reduzir a cidade a algo menor, ao desço um degrau na escala para enxergar um Bairro com mais detalhes.

Note que temos um termo destacado: lírica. Ele também classifica a fantasia urbana, indicando a natureza do sobrenatural esperado. No lugar de bolas de fogo, vampiros e grandes poderes, temos a palavra e a poesia como formas de alterar a realidade. Ocorre que as aves – animais, que não falam como nós, humanos – aqueles que possuem o poder para rasurar a realidade. A fantasia se dá na intervenção, física ou mágica, porém sempre sutil e terna, no cotidiano das pessoas. E isso se dá por meio do que as próprias pessoas costumam atribuir às aves. Fechando um ciclo hermenêutico, os humanos inventam atributos às aves por meio de sua observação, e estes, por meio da fantasia lírica, agem sobre o Bairro por meio destas capacidades poeticamente criadas. Sendo um misto de observador, criador e descritor das crônicas fantásticas do Bairro, as aves usam suas penas para escrever as histórias em contornos livres. E o Narrador é apenas quem relata essas histórias.

Mas não importa falar apenas que se trata de uma fantasia urbana. O adjetivo intimista serve a destacar o foco: serão histórias sobre dramas humanos. Dramas intensos, questões delicadas. E aqui temos uma mudança em relação aos títulos mais brincantes e infantis. Em Asas da Vizinhança lidaremos com frustrações, angústias, aqueles problemas que nos fazem chorar, pro vezes sem razão aparente. Logo, as aves não protegerão a humanidade de ameaças cósmicas, não resolverão crimes, não prenderão bandidos ou buscarão armas mágicas ou algo assim. A fonte central do conflito serão coisas que podem ser grandes ou pequenas, pedaços do caleidoscópio que somos. Então, uma menina que perdeu um brinquedo é combustível para ficção, tal qual um senhor que caiu na rua. As coisas acontecem, ou você não percebeu o rapaz chorando ao lado do ônibus que tomou na semana passada?

O Narrador
Um dos jogadores será o Narrador da história. Ele terá a função de descrever cenários, narrar o a história e fornecer os desafios aos jogadores. O Narrador possui um conjunto de regras e procedimentos próprios para que o drama entre em jogo.

Uma coisa que está presente na Rua dos Pombos, em grande parte da estrutura de crônicas urbanas, e na poesia de Manoel de Barros é a presença dessa figura que narra, e uma visão sempre em terceira pessoa do que está acontecendo. O pequeno Maneco não se expressa, mas o narrador diz o que ele faz. Isso mesmo, o Narrador não vai interpretar o papel de coadjuvante algum. Os humanos serão “mudos”, e termos uma voz que indica o que eles estão fazendo.

Essa ausência do destaque à agência humana, com um enfoque maior à história contada sobre a vida no Bairro tomada do ponto de vista de um observador é interessante para visão em perspectiva de Asas da Vizinhança. Além de conjugar com a leveza e o lirismo proposto, será mais simples – uma vez que temos apenas a voz do narrador – poder brincar com a realidade, utilizando as ações/poderes das Aves.

Neste sentido, o narrador apenas contaria a história comum, como um cronista do Bairro. O que proporciona as reviravoltas aos dramas humanos será a intervenção mágica (ainda que subjetiva) e lúdica dos protagonistas do jogo, as Aves.



Autores: Jorge Valpaços
Editora: Lampião game Studio
Data de lançamento: 18 de janeiro 2018

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